quinta-feira, abril 16, 2009

O dia de aniversário do Restaurante Popular

Terça-feira (14 de abril) houve a cerimônia do aniversário de um ano do Restaurante Popular, que cobra R$ 1,00 por almoço. A abertura do local foi às 11 horas, como de costume. Cheguei com o compromisso de fazer uma matéria. Logo de início, analisei as perguntas feitas pelos repórteres ao prefeito Carlito Merss, que estava no local com outras autoridades. Depois, fui para a fila.

Lá, enquanto discutia com Marcus, amigo de faculdade, sobre a necessidade, ou não, de conversar com o Carlito sobre o restaurante, observava o movimento do local. Tinha gente com uniforme de empresa, desempregados, moradores de rua, estudantes, famílias e, fora da fila, o grupo: prefeito e seus acompanhantes. Decidi não tirar meu bloco da mochila. Deixei que as informações viessem de forma natural.

O assunto na fila, basicamente, era o mesmo: o aniversário do restaurante. Uma senhora, com aparência de uns 60 anos, me falou: “É a quarta vez que venho aqui”. A cada passo que dava, a ansiedade de comer aumentava. Atrás da parede de vidro, já via-se o prato do dia. “Hoje tem bolo”, alguém, pouco à frente, comentou. Chegando na entrada, abri a carteira e perguntei: “É um real tudo? Até com suco?”. A moça do caixa confirmou. Nisso, outra senhora na fila iniciou um diálogo:

- Primeira vez aqui?

- Sim! - respondi.

- Eu venho desde que isso abriu. Tenho dois filhos, mas eles vieram poucas vezes. Eles têm preguiça de ficar na fila, então almoçam em outro restaurante. Mas eu não, venho aqui todo dia.

- Mas tu vem de ônibus todo dia? Porque aí não compensa, né? - outra moça comentou.

- Não, trabalho de diarista aqui perto. Venho de bicicleta.

Nessa conversa, passamos pelo corredor de entrada, onde tem um lavabo.

Confrontando com os dados que apontam 10 minutos como tempo médio de espera, peguei o prato após 35 minutos na fila.

Um pão francês, arroz, feijão, alface, cenoura, suco e dois guardanapos, foi o que levei comigo para a mesa. Ainda, para quem quisesse, tinha um pedaço de frango, macarrão e bolo, como sobremesa. Já à mesa, o assunto principal era a presença do prefeito Carlito Merss. Olhei para fora, através do vidro, e vi as pessoas nos observando, exatamente como eu fazia, quando estava naquela situação de espera. Ainda fora da fila, o prefeito conversava com repórteres e amigos.

O almoço estava gostoso. O ambiente estava ótimo. Na mesa, algumas frases eram citadas para puxar assunto. Voltava o silêncio. Logo, mais comentários. O diálogo sempre era sobre o restaurante. Enquanto um questionava a perda de qualidade da comida, outro criticava a demora para conseguir almoçar. Num certo momento, um senhor de idade comentou: “Olha o prefeito ali na fila”. Olhei. Ele já havia passado pela catraca de entrada. Observei pessoas que haviam me chamado a atenção na fila, e elas ainda estavam lá, antes da catraca. “Furou fila”, pensei. “Alguém pode ter guardado lugar para ele, mesmo assim, furou”, conclui.

A presença de Carlito, na mesa ao lado, alterou o clima natural do ambiente. Na verdade, não sei como é o clima normalmente, mas a data festiva e a presença do prefeito, certamente modificaram a rotina do restaurante.

Levantei-me. Levei a bandeja para o lugar. Separei a louça, como pedido. Joguei no lixo dos copos, o copo, e no de guardanapo, os guardanapos. Olhei atentamente o local. A grande maioria são pessoas que realmente precisam desse serviço. São humildes, simples, que muitas vezes saem de casa pela economia que terão almoçando ali. Outros vêm do trabalho ou de escolas próximas.

Em média, são oferecidas 725 refeições por dia no Restaurante Popular. A cada prato, a prefeitura subsidia com R$ 2,50. A capacidade do local é de 100 pessoas, porém, apesar da fila, muitos lugares ficam vagos. A demora ocorre ao servir os alimentos. Apenas colocar mais mesas e lugares, não diminuiria o tempo de espera. É preciso organizar uma forma de servir ao público que não dependa apenas de uma fila. Colocar outras bandejas de alimentos, bifurcando a fila após a entrada, e aumentar a capacidade de lugares, faria com que o atendimento fosse mais ágil.

Lá fora, a espera estava maior. Algumas pessoas que já haviam almoçado, retornaram à fila para comer novamente. Os satisfeitos compravam picolé em frente ao restaurante com o dinheiro economizado. Eu preferi deitar embaixo de uma árvore e descansar.



Obs: Essa matéria foi feita para a revista eletrônica do Bom Jesus/Ielusc (Revi).

7 comentários:

Anônimo disse...

Oi Bruno.

Uma matéria como essa é mto melhor do que aquelas "padrões" do jornalismo, até entendo porque dentro do jornal diário é nada comum uma matéria como essa, não sobre o tema, mas a maneira da escrita.

O tema e determinados aspectos da escritas lembrou o livro "Na pior em paris e londres", do George Orwell, onde traz um ensaio sobre vivência como mendigo nas duas cidades nos anos 1920 e 30.

Claro, você não viveu como um mendigo e nem por algumas horas... mas a escrita lembrou. vc já leu o livro ?

Bruno, continue a publicar no seu blog o que vc está escrevendo para a REVI e outras coisas tbm.

:-)
Maikon k
www.vivonacidade.blogspot.com

Michels disse...

Aix que orgulho desse jornalista literário ;)

bruno disse...

o Maikon sempre arruma uma desculpa pra falar de mendigo agora.

Muito bom o texto!

H. disse...

Sehr gut!

Ronaldo Santos disse...

Parabéns pelo texto, Bruno!
Rico em detalhes e diferente de qualquer outro sobre o mesmo assunto.

Ivan disse...

o, quero ler o texto da ocupação, aehuaehaeuea, tu escreve muito

ana janaina mendes disse...

é, vai ser uma ótimo jornalista ;)